Se passar da fase de pré-seleção, desta vez o Brasil tem chances. Entenda porque.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” representa o Brasil no Oscar: o que esperar agora

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" representa o Brasil no Oscar: o que esperar agora

Uma boa notícia para os fãs de cinema com temas LGBT brasileiros: o filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” de Daniel Ribeiro foi anunciado nesta quinta-feira (18) como o representante do Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2015. Com estréia marcada nos EUA para o dia 7 de novembro (com o título “The Way He Looks”), a história do adolescente cego Leonardo (Guilherme Lobo) que tenta ganhar autonomia e descobre aos poucos a própria identidade e o amor por seu melhor amigo, Gabriel (Fabio Audi) já havia conquistado em fevereiro último dois prêmios no Festival de Berlim, o  Teddy (prêmio da mostra de melhor filme com temática LGBT) e o prêmio da Fipresci—Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica—como melhor filme da mostra Panorama, a segunda mais importante do Festival.

A nomeação em si já é algo para comemorar, e marca o início da etapa mais complexa em busca de um Oscar—feito até agora inédito para um filme brasileiro: é tempo de ganhar a apreciação das comissões  da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas que escolhem os cinco indicados que disputarão a estatueta no Kodak Theatre, dia 22 de fevereiro. Esses filmes escolhidos serão anunciados em 15 de janeiro, o que dá a “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” na prática cerca de dois meses de exibição nos EUA para conquistar não só a simpatia, mas as atenções  dos votantes. A categoria de Melhor Filme Estrangeiro é uma das votações mais árduas para os júris do Oscar—cujos membros recebem uma quantidade realmente grande de filmes para assistir num prazo bastante estreito (e que segundo a própria imprensa especializada norte-americana nem sempre dão conta de ver todos: ver em http://variety.com/2014/film/news/oscars-foreign-language-1201079955/ )—e filmes que não ganhem rapidamente um bom destaque acabam não passando da seleção inicial.

Assim, para obter algum sucesso em busca de um Oscar o filme vai precisar não apenas de suas qualidades, mas de uma boa distribuição comercial, presença na mídia estadunidense, público pagante expressivo (ao menos dentro dos padrões aceitáveis para produções legendadas nos EUA) e um grande apoio não só de um estúdio forte que o represente por lá, como também de outros ramos da indústria do cinema que possam enxergar nele alguma chance  interessante de lucros futuros, seja com a exibição em si ou com o que se possa tirar dele (como por exemplo atores, diretores e roteiristas).  E tudo isso até o encerramento das primeiras votações.

Mas, caso seja superada essa etapa, quais seriam as chances reais de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” para ganhar um Oscar? É possível ter uma boa dose de confiança daí em diante. Embora seja impossível prever o que deve acontecer em fevereiro de 2015, algumas qualidades do filme o põem em uma condição bastante boa numa disputa final:

a) Tema atual e global: uma das grandes dificuldades enfrentadas por votantes da Academia é a falta de identificação e entrosamento com temas muito locais de alguns filmes, cujos dramas nem sempre são compreendidos em sua total extensão. Foi o que condenou as chances de trabalhos como “Lagaan” (Índia, em 2002), “Carmen” (Espanha, 1984) ou  mesmo a animação “Rio” (para Oscar de longa animado em 2012) e “O Pagador de Promessas” (Brasil,  em1963—e vencedor da Palma de Ouro em Cannes) ao disputar uma estatueta, preteridos por temas menos “estrangeiros”. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é uma história que trata basicamente de juventude, deficiência física, auto-descoberta, sexualidade e autonomia numa grande cidade, temas bastante fáceis de entender nos dias de hoje, literalmente por qualquer um.

b) Mensagem atual e interessante ao público norte-americano: o filme aborda temas que tem estado constantemente em pauta nos EUA, e mostrados sob uma atualmente desejável luz positiva: inclusão social, diversidade sexual, combate ao bullying, além do eterno tema de relações familiares ideais (e idealizadas) que Hollywood no geral adora. Pode ganhar com isso justamente a atenção midiática que precisa. Não é algo “fora de época e identidade” (como críticos americanos chegaram a descrever “O Quatrilho”, o indicado brasileiro em 1996). Some-se ainda alguns elementos de “simpatia política” que podem contar a favor desta vez:  sempre ajuda não tocar em certas feridas abertas entre países (o que aconteceu com “O Que É Isso, Companheiro?” em 1998: é bastante complicado falar de rebeldes brasileiros sequestrando um diplomata americano para os próprios americanos e agradar totalmente), ou uma vez tocando, saber de que lado se está. O cenário é inusitadamente favorável graças às relações internacionais: num tempo de escaramuças entre EUA e Rússia, onde a Rússia adotou leis onde há repressão a homossexuais e é proibido mesmo dizer a crianças e adolescentes que gays existem (!) um filme teen que mostra um romance entre dois rapazes com alegria e leveza pode ser “adotado” pelos EUA e ganhar status de um alfinete a mais na troca de provocações internacionais (o que no fim seria uma bela ajuda).

c) Ineditismo e frescor: Por mais que haja quem diga que o roteiro de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não seja muito original—afinal, histórias onde a amizade dá lugar a um amor existem e sempre existiram—a verdade é que o filme evitou habilmente uma das maiores armadilhas que poderia por tudo a perder: a sensação de “dejá vú”. Por mais que se afirme que já se viu histórias assim, não se pode dizer que já se viu um filme igual, ou ao menos de roteiro gritantemente parecido, a não ser o próprio curta que o originou, de 2010. Assim, evita-se o problema grave que comprometeu o êxito de “Central do Brasil” em 1999: o filme que chegou a ser visto como a melhor chance de uma produção brasileira no Oscar repetiu elementos demais de “Kolya”, filme tcheco que havia faturado a estatueta dois anos antes e ainda estava fresco na memória dos votantes da Academia. Num caso desses, nem Fernanda Montenegro para salvar, mas agora a história pode ser bem outra.

Hoje-Eu-Quero-Voltar-Sozinhod) Elenco com muito futuro nos EUA: muito futuro mesmo! Já há bastante tempo, atores e diretores de filmes estrangeiros de sucesso acabam recebendo convites e vão filmar nos EUA, sendo material de grande interesse não apenas no cinema, mas na televisão: e hoje os estúdios que fazem super-produções para telas grandes são no geral os mesmos que mantém grandes canais e redes de TV, com seriados de faturamentos milionários como as produções da Disney, Game of Thrones e The West Wing. Foi isso o que levou nomes como Guillermo del Toro, Javier Bardén, Fernando Meirelles e o próprio Ang Lee para Hollywood, com muito sucesso (e lucros). No caso de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, o que chama a atenção é o elenco jovem (que por si só já interessa, num tempo e lugar onde seriados adolescentes rendem muito bem): o filme nos deu uma atriz simpática e de fácil identificação (Tess Amorim) além de um tanto de rostos masculinos jovens, bonitos, carismáticos e habilidosos. Com um detalhe a mais: no meio de tudo isso está um ator extraordinário, que pode render bem mais que simples elogios.

Todas-as-coisas-mais-simples-2e) Possibilidade de indicação em mais uma categoria grande: O desempenho de Guilherme Lobo como o cego Leonardo já foi tão elogiado dentro e fora do Brasil, e tem causado tamanha boa impressão que não seria de se estranhar que ele fosse ao menos indicado ao Oscar de Melhor Ator. E uma indicação a mais numa das categorias principais do Oscar seria tudo que o filme precisaria num momento final, para impulsionar sua campanha e trazer bem mais para perto o desejado o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. O detalhe curioso é que mesmo que o filme eventualmente não consiga a indicação do Oscar para Melhor Filme Estrangeiro, Guilherme ainda assim teria a chance de competir na categoria Melhor Ator, já que os votantes não são necessariamente os mesmos. Tudo vai depender—mais do que nunca—do quanto o filme seja assistido e distribuído nos dois meses antes da votação, quanto destaque tenha e que  Guilherme tenha presença em entrevistas e matérias sobre cinema nos EUA.

Lembrando: esses são pontos favoráveis, grandes argumentos em prol de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”  tanto para o público quanto para a indústria, mas que ainda estão longe de dizer se o filme vai ganhar ou mesmo ser indicado a um Oscar ou não. Lembremos das dificuldades da votação e da popularidade que ele precisa ganhar em poucos meses, que o tiraria da condição de obra “cult” destinada a audiências LGBT predominantemente latinas e finalmente o mostraria a grandes públicos. O Oscar também não é isento de surpresas, e a categoria Melhor Filme Estrangeiro é uma das que muitas vezes desafia toda a lógica: já aconteceu antes de filmes com um apelo totalmente favorável a um Oscar (como o francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, em 2002) perderem o prêmio para concorrentes desconhecidos, ou nem ao menos serem indicados. Ou seja: um passo foi dado, mas ainda não há ainda nada garantido. Seja como for, o que já existe é mais que suficiente para mostrar que o filme tem muito a oferecer, e agora numa premiação mais comercial pode voar muito mais alto do que o que normalmente se espera de uma produção estrangeira nos EUA. É esperar, torcer e conferir.



Sobre Deneb Rhode

Deneb Rhode, quase 42 aninhos, mora em algum lugar de São Paulo. É jornalista, redatora, revisora, dramaturga, cinegrafista, gamer, micreira, geek, ficwriter, quilteira, motorista, tosadora, cheiradora de gatinhos, e recalcitrante, não necessariamente nessa ordem. Uma das pioneiras do jornalismo Web no Brasil (sério!) já rodou o mundo, já viu um pouco de tudo e agora ocupa o prestigioso posto de mafagafo oficial do site Blyme Yaoi. Ver todos os tópicos de Deneb Rhode

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